9.3.10

Na pele de um louco

Acordo pela manha sentindo algum frio que se cola em mim num diferente sentir de antes.
Não sei se foi um sonho o que por momentos senti, que este frio já foi quente.
Estico os membros neste algo frio, bocejo e sinto um gosto metálico no ar que vou expelindo.
Ainda de olhos fechados confirmo que já senti este sabor antes, oiço este silencio na casa que não vi antes...

Não sinto presença alguma em casa...
nem sinto a própria casa.

Imerso no sono ainda detentor e residente em mim, ainda de olhos fechados, esfrego a cara com as mãos enquanto me desloco em direcção à janela do quarto.

La fora o tempo está divertido.
Sei disso porque o vejo a saltar de uma nuvem para outra enquanto escorrega em barcos navegando nas gotas de orvalho.

Do outro lado da janela permanecem dois varões com uma corda que aguardam o peso de roupa molhada...roupa essa que não está lá.
Mais abaixo, um pateo de cimento com folhas perdidas no chão espera um vento que as leve ou uma pá que as carregue dali.
Do lado de dentro da janela, os vidros sujos e o pó no chão lembram-me que mandei a mulher limpar isto tudo à três dias.

Normalmente a esta hora a casa já costuma ter vida!

Lembro-me de estar acostumado a sentir a casa mover-se, inalando as paredes pulmonares cimentadas, respirando...

sentindo...

Sinto a pele da cara...
dura...
seca...
reparo nisto à medida que os sentidos vão acordando.

Toco com os dedos, duros, na cara, dura...
sinto as pestanas presas.

Observo as mãos que estranhamente apresentam uma coloração diferente com um algo estranho, acastanhado, entre as unhas.

Olho para a cama e entendo agora porque não oiço a casa.
Vejo porque não esta a roupa húmida na corda.
Porque continuam as folhas ainda presas no chão de cimento.
Compreendo agora porque não oiço o pular da casa...o saltitar do tempo alegre dentro de casa...

Olhei para a cama
Vi os lençóis tingidos de vermelho
As paredes salpicadas
O candeeiro caído, partido, no chão ao lado do machado afiado...

A minha mulher, deitada, coberta pela mesma cor, imóvel e fria, tremendo enquanto segurava o meu corpo desfeito.

4 comments:

Li said...

Gostei muito sim senhora... gostei da forma como descreveste, como focaste os pormenores!
kiss****

Mokas said...

Oh Garras, eu disse aquilo da gaja mas tipo.. não era para levares a sério... tipo... os meus gostos são uma coisa e os teus, são outra! Quando disse para despachares a gaja, não era a nada disto que me estava a referir.
Enfim, um abraço e espero que já tenhas limpo essa budega toda...
Se precisares de um alibi já sabes.
Abraço

Garras said...

Li, obrigado. :P
beijo

Mokas, afinal quem é que morreu?
leste?
lololol
Abraço

Mokas said...

ah caraças... percebi mal.

Mas como eu não posso dar o braço a torcer, vou inventar qq coisa.

Epah quem morreu foi a gaja.
Tu "morreste" nas mãos dela.
Morreste quando a mataste.

Portanto, quem morreu, foi ela.

[a isto chama-se teoria da arte. A obra existe, o artista nao faz ideia porque a fez, vem um critico, e "enventa" qualquer coisa. A partir daí toda a obra ganha um sentido e dimensão superior]

=P

[and it's true]