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30.4.10

Untitled


Passava já demasiada noite da hora ideal quando às 03:42 decide por fim encostar a cabeça na almofada que o esperava.
Enquanto isso, força o sacudir das asas com pó pesado que se acomodou durante o dia que esteve morto e dá agora lugar à leveza, do real, que deixara de ser negro para dar lugar a um outro brilho.
Abertas as asas e esticadas as penas, aproveita o momento para inspirar enquanto toma 2 gramas daquilo, envolto em capsular de gelatina preta, isto só para acordar.
Agita novamente as asas, agora vibrantemente afectadas pelas 2 gramas e sorri ao sentir as mariposas que lhe levantam o calor de dentro.
La fora, a lua já caminhou para lá do quadrante perigoso e aproxima-se agora já da hora certa para levantar voo.
Levanta os olhos em direcção aos raios de luar fitando-o ate ao ponto em que a luz branca desiste para dar lugar aos efeitos das 2 gramas daquilo, envolto em capsular de gelatina preta, só para acordar, para agarrar e transformar a lua em calor e o escuro em aromas verdes salteados com o salgado de pedras de calçada de um ouro que não lhe faz falta.
Ao longo voo observa atentamente o mundo morto de onde acordou enquanto vive realmente o que avista pela sua perspectiva...tantas diferentes... são tantos... tão diferentes...
A transparência é onduladamente imperfeita num todo, de tal forma que lhe permite sentir aquelas asas brilhantes, só dele. Cada linha, perfeita. Cada movimento, perfeito...
Aos poucos, as 2 gramas daquilo, em preto capsular, deixa-lhe a boca seca ao perder o seu efeito e aos poucos sente-se morrer novamente ate ao momento em que as asas deixam de ter força para o manter no ar e o precipitam em direcção ao solo, agora mais escuro, mais luar...mais...morto.
Passava agora demasiado da hora em que levanta a cabeça da almofada que o sustentava enquanto esteve vivo...
Eram 03:46, apetecia-lhe morrer outra vez.

9.3.10

Na pele de um louco

Acordo pela manha sentindo algum frio que se cola em mim num diferente sentir de antes.
Não sei se foi um sonho o que por momentos senti, que este frio já foi quente.
Estico os membros neste algo frio, bocejo e sinto um gosto metálico no ar que vou expelindo.
Ainda de olhos fechados confirmo que já senti este sabor antes, oiço este silencio na casa que não vi antes...

Não sinto presença alguma em casa...
nem sinto a própria casa.

Imerso no sono ainda detentor e residente em mim, ainda de olhos fechados, esfrego a cara com as mãos enquanto me desloco em direcção à janela do quarto.

La fora o tempo está divertido.
Sei disso porque o vejo a saltar de uma nuvem para outra enquanto escorrega em barcos navegando nas gotas de orvalho.

Do outro lado da janela permanecem dois varões com uma corda que aguardam o peso de roupa molhada...roupa essa que não está lá.
Mais abaixo, um pateo de cimento com folhas perdidas no chão espera um vento que as leve ou uma pá que as carregue dali.
Do lado de dentro da janela, os vidros sujos e o pó no chão lembram-me que mandei a mulher limpar isto tudo à três dias.

Normalmente a esta hora a casa já costuma ter vida!

Lembro-me de estar acostumado a sentir a casa mover-se, inalando as paredes pulmonares cimentadas, respirando...

sentindo...

Sinto a pele da cara...
dura...
seca...
reparo nisto à medida que os sentidos vão acordando.

Toco com os dedos, duros, na cara, dura...
sinto as pestanas presas.

Observo as mãos que estranhamente apresentam uma coloração diferente com um algo estranho, acastanhado, entre as unhas.

Olho para a cama e entendo agora porque não oiço a casa.
Vejo porque não esta a roupa húmida na corda.
Porque continuam as folhas ainda presas no chão de cimento.
Compreendo agora porque não oiço o pular da casa...o saltitar do tempo alegre dentro de casa...

Olhei para a cama
Vi os lençóis tingidos de vermelho
As paredes salpicadas
O candeeiro caído, partido, no chão ao lado do machado afiado...

A minha mulher, deitada, coberta pela mesma cor, imóvel e fria, tremendo enquanto segurava o meu corpo desfeito.

17.5.08

Nao aconteceu...nao a mim.

Sentado na esplanada de um café está ele bem vestido com uma roupa pouco nova, sem marcas ou desenhos, coisa simples… uns jeans azuis e uma T-shirt branca.
Á sua frente, bem próximo do nariz esta um portátil em cima da mesa de esplanada que já aparenta algumas primaveras passadas na rua.
Ali bem perto num canto da mesa, um pequeno prato junto a uma colher que mais parece um pedaço de destroco da segunda guerra sustenta uma chávena de café marcada com resíduos secos. Outrora repleta de um líquido escuro como a noite, amargo e forte mas ao mesmo tempo doce e agradável espera agora paciente chegar a hora de ser levada de volta para companhia de suas irmãs.

Mas ele não se importa com isso.
Não se importa com um portátil gasto do suor salgado das mãos e por trás dele pequenos guardanapos com riscas azuis que mexem as pontas em movimentos ondulantes ao sabor do vento que somente não voam dali para fora por estarem atulhados dentro de um pedaço de plástico pequeno de formas semelhantes a um cubo e pintado com um monte de letrinhas coloridas.
Por breves momentos o vento acalma e tudo na mesa descansa ao mesmo tempo que ELE
respira fundo em agradecimento ao vento e sem levantar os olhos, continua a pressionar teclas gastas do uso e a fazer movimentos elípticos com o indicador da mão direita num pequeno quadrado negro.
Sente na pele e na roupa o sopro do vento, passam minutos no relógio, ouvem-se as horas no sino da igreja e vê-se passar pessoas em ritmo apressado com passos largos e a olhar repetidamente para os relógios demonstrando uma expressão de tédio e pouca vontade.
Mas ele não vê isso.
Ele não ouve o sino da igreja nem repara que as pessoas ali estão. Para ele, elas não existem, assim com não existe o ruído maluco dos motores e o descolar de pneus de carros e motas que passam rapidamente na estrada, logo ali ao lado, entre a cadeira da frente e o toldo colorido que oferece sombra a uma fachada envidraçada do outro lado da rua.
Ate à bem pouco tempo ele ainda não reparara que o toldo pertencia a uma filial bancária mesmo sendo ele cliente frequente daquele café, sentando-se quase sempre no mesmo sitio, todos os dias à mesma hora.
Mas agora ele não está a ver nada disso.
Ele nem repara quando o empregado de mesa se dirige a ele e pergunta se deseja mais alguma coisa.
O empregado repete a pergunta agora com um tom de voz ligeiramente pausado mas mais elevado.
Pela primeira vez naquela tarde desde que se sentou ali, ele retira os olhos do monitor e fita o empregado por cima das lentes dos óculos. Os seus olhos vermelhos demonstram cansaço de estar ali há horas sempre a olhar para aquela monitor fino e a lutar contra a luz do dia.
Pela primeira vez também naquele espaço de tempo, ele olha para o relógio. São 16:48.
Pelo menos é o que lhe apresentam os pequenos ponteiros do seu relógio de bolso cinzento metalizado.
Pensando no que iria pedir, decide se por um descafeinado e uma agua fresca sem gás somente para não estar ali sem fazer gastos pois pensou que os quatro cafés que bebera já seriam por esta altura cafeína suficiente para um dia e ele já sentia as pernas a quererem ir para casa sozinhas.
Enquanto esperava pelo café, ele continuava a pressionar teclas com uma força e um impulso exacto, forte, mas ao mesmo tempo delicado criando um som fluido e quase rítmico.
O café chega então à sua mesa.
Ele levanta agora o tronco curvado da posição em que estava e com um movimento de cabeça agradece ao empregado, afasta o portátil para o lado direito e cria o espaço para a chávena, rasga o cantinho do pacote de açúcar e começa a verte-lo bem devagar, como num ritual, para dentro da chávena onde ficara suspenso pela espuma do café.
Antes de pegar na colher, com melhor aparência que a anterior, coloca uma mão no bolso para retirar novamente o seu relógio e certificar-se das horas. São 16:56 e ele ganha agora um novo ritmo.
Os seus movimentos estão agora mais rápidos, mexe o café com se estivesse com alguma pressa. Mas não está.
Ele não tem pressa agora. Muito menos agora.
Enquanto espera que o café arrefeça um pouco, recosta-se na cadeira de plástico e tenta relaxar.
Passa agora os olhos ao seu redor para descansar, permanece com o olhar num arco em pedra por alguns instantes e fica a pensa na fotografia porreira que sairia ali. Retira os olhos e continua a percorrer a rua visualmente parando finalmente na porta da filial bancária.
Já é assim a cerca de uma semana, quando ele reparou pela primeira vez que ela saía do interior daquele edifício, pela porta de vidro todos os dias as 17 horas.
Hoje ele estava decidido a convida-la para se sentar ali, na cadeira da frente, do outro lado do portátil e talvez ter uma conversa agradável e decente não se limitando apenas a olhar para ela todos os dias pelo canto do olho enquanto ela se sentava sozinha numa mesa ao lado da dele.
Desta forma ele esperava que esta tarde não terminasse da mesma maneira de todas as tardes da última semana….
Sentado na esplanada de um café está ele bem vestido com uma roupa pouco nova, sem marcas ou desenhos, coisa simples…