17.5.08

Nao aconteceu...nao a mim.

Sentado na esplanada de um café está ele bem vestido com uma roupa pouco nova, sem marcas ou desenhos, coisa simples… uns jeans azuis e uma T-shirt branca.
Á sua frente, bem próximo do nariz esta um portátil em cima da mesa de esplanada que já aparenta algumas primaveras passadas na rua.
Ali bem perto num canto da mesa, um pequeno prato junto a uma colher que mais parece um pedaço de destroco da segunda guerra sustenta uma chávena de café marcada com resíduos secos. Outrora repleta de um líquido escuro como a noite, amargo e forte mas ao mesmo tempo doce e agradável espera agora paciente chegar a hora de ser levada de volta para companhia de suas irmãs.

Mas ele não se importa com isso.
Não se importa com um portátil gasto do suor salgado das mãos e por trás dele pequenos guardanapos com riscas azuis que mexem as pontas em movimentos ondulantes ao sabor do vento que somente não voam dali para fora por estarem atulhados dentro de um pedaço de plástico pequeno de formas semelhantes a um cubo e pintado com um monte de letrinhas coloridas.
Por breves momentos o vento acalma e tudo na mesa descansa ao mesmo tempo que ELE
respira fundo em agradecimento ao vento e sem levantar os olhos, continua a pressionar teclas gastas do uso e a fazer movimentos elípticos com o indicador da mão direita num pequeno quadrado negro.
Sente na pele e na roupa o sopro do vento, passam minutos no relógio, ouvem-se as horas no sino da igreja e vê-se passar pessoas em ritmo apressado com passos largos e a olhar repetidamente para os relógios demonstrando uma expressão de tédio e pouca vontade.
Mas ele não vê isso.
Ele não ouve o sino da igreja nem repara que as pessoas ali estão. Para ele, elas não existem, assim com não existe o ruído maluco dos motores e o descolar de pneus de carros e motas que passam rapidamente na estrada, logo ali ao lado, entre a cadeira da frente e o toldo colorido que oferece sombra a uma fachada envidraçada do outro lado da rua.
Ate à bem pouco tempo ele ainda não reparara que o toldo pertencia a uma filial bancária mesmo sendo ele cliente frequente daquele café, sentando-se quase sempre no mesmo sitio, todos os dias à mesma hora.
Mas agora ele não está a ver nada disso.
Ele nem repara quando o empregado de mesa se dirige a ele e pergunta se deseja mais alguma coisa.
O empregado repete a pergunta agora com um tom de voz ligeiramente pausado mas mais elevado.
Pela primeira vez naquela tarde desde que se sentou ali, ele retira os olhos do monitor e fita o empregado por cima das lentes dos óculos. Os seus olhos vermelhos demonstram cansaço de estar ali há horas sempre a olhar para aquela monitor fino e a lutar contra a luz do dia.
Pela primeira vez também naquele espaço de tempo, ele olha para o relógio. São 16:48.
Pelo menos é o que lhe apresentam os pequenos ponteiros do seu relógio de bolso cinzento metalizado.
Pensando no que iria pedir, decide se por um descafeinado e uma agua fresca sem gás somente para não estar ali sem fazer gastos pois pensou que os quatro cafés que bebera já seriam por esta altura cafeína suficiente para um dia e ele já sentia as pernas a quererem ir para casa sozinhas.
Enquanto esperava pelo café, ele continuava a pressionar teclas com uma força e um impulso exacto, forte, mas ao mesmo tempo delicado criando um som fluido e quase rítmico.
O café chega então à sua mesa.
Ele levanta agora o tronco curvado da posição em que estava e com um movimento de cabeça agradece ao empregado, afasta o portátil para o lado direito e cria o espaço para a chávena, rasga o cantinho do pacote de açúcar e começa a verte-lo bem devagar, como num ritual, para dentro da chávena onde ficara suspenso pela espuma do café.
Antes de pegar na colher, com melhor aparência que a anterior, coloca uma mão no bolso para retirar novamente o seu relógio e certificar-se das horas. São 16:56 e ele ganha agora um novo ritmo.
Os seus movimentos estão agora mais rápidos, mexe o café com se estivesse com alguma pressa. Mas não está.
Ele não tem pressa agora. Muito menos agora.
Enquanto espera que o café arrefeça um pouco, recosta-se na cadeira de plástico e tenta relaxar.
Passa agora os olhos ao seu redor para descansar, permanece com o olhar num arco em pedra por alguns instantes e fica a pensa na fotografia porreira que sairia ali. Retira os olhos e continua a percorrer a rua visualmente parando finalmente na porta da filial bancária.
Já é assim a cerca de uma semana, quando ele reparou pela primeira vez que ela saía do interior daquele edifício, pela porta de vidro todos os dias as 17 horas.
Hoje ele estava decidido a convida-la para se sentar ali, na cadeira da frente, do outro lado do portátil e talvez ter uma conversa agradável e decente não se limitando apenas a olhar para ela todos os dias pelo canto do olho enquanto ela se sentava sozinha numa mesa ao lado da dele.
Desta forma ele esperava que esta tarde não terminasse da mesma maneira de todas as tardes da última semana….
Sentado na esplanada de um café está ele bem vestido com uma roupa pouco nova, sem marcas ou desenhos, coisa simples…

4 comments:

Mokas said...

ah lembro-me disto!
agora está melhor...

Cabra Expiatória said...

Isto está forte, jove! Muito forte!

Bonito.... e forte!

Gostei!


***

Garras said...

Ainda bem que gostaste.
e ja agora bem vinda de volta pois tens andado away durante ums tempos!
:P

Mokas...nao ta assim tao diferente do que estava ...axo eu !


Abracos Beijos e arranhoes

Cabra Expiatória said...

Desculpa... mas não tenho mesmo tido tempo nenhum....


Mas eu voooolto! Osse volto! Já cá estou e tudo!

;)